Neoplasia do ângulo esplênico com invasão torácica: tosse fecaloide como assinatura clínica de fístula colo-pleural
DOI:
https://doi.org/10.37085/jmmv8.n1.2026.pp.12-15Palavras-chave:
Tosse fecaloide, Fístula colo-pleural, Neoplasia do cólon, Tomografia computorizada, Cuidados paliativosResumo
Apresenta-se o caso de uma mulher de 76 anos, com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica e história tabágica significativa, que desenvolveu tosse produtiva progressiva, inicialmente purulenta e posteriormente fecaloide, um sinal clínico raro, mas altamente específico de comunicação patológica entre o trato gastrointestinal e a árvore respiratória (1). Associavam-se dispneia para pequenos esforços, anorexia e dor no hipocôndrio esquerdo.
Previamente, a doente foi tratada por pneumonia com derrame pleural, sem internamento, após o que ocorreu deterioração clínica sustentada. A radiografia torácica revelou opacificação do hemitórax esquerdo com apagamento do contorno diafragmático, traduzindo envolvimento pleuro-pulmonar significativo (2).
A tomografia computorizada evidenciou uma volumosa massa com origem no ângulo esplênico do cólon, exibindo comportamento francamente agressivo, com extensão transdiafragmática e invasão direta do hemitórax esquerdo. Destacavam-se áreas de necrose com níveis hidroaéreos no pulmão, compatíveis com abscesso, com espessamento e irregularidade do diafragma e, um achado crítico que sugere invasão tumoral e comunicação fistulosa (3,4).
A doença apresentava-se já em estádio avançado: perda dos planos de clivagem com o baço, cauda pancreática e parede gástrica, associada a densificação da gordura mesentérica e micronodularidade peritoneal, compatíveis com carcinomatose.
A colonoscopia revelou lesão infiltrativa estenosante. De forma particularmente elucidativa, a insuflação colônica desencadeou de imediato tosse com expetoração fecaloide, estabelecendo, de forma quase inequívoca, o diagnóstico funcional de fístula colo-brônquica/colo-pleural.
Apesar de biópsia inicial inconclusiva, a correlação clínico-imagiológica permitiu assumir o diagnóstico de neoplasia colorretal avançada com complicação fistulosa transdiafragmática. Perante a extensão da doença e fragilidade clínica, foi instituída abordagem paliativa com colostomia derivativa, centrada no controlo sintomático.
Este caso representa uma das manifestações mais dramáticas e raras de neoplasias do cólon: a capacidade de romper barreiras anatômicas e estabelecer comunicação direta entre cavidade abdominal e torácica. A expectoração fecaloide, embora incomum, constitui um sinal de alarme maior e não deve ser subvalorizada.
A presença de tosse fecaloide, particularmente quando associada a infeções respiratórias recorrentes, deve levantar forte suspeita de fístula entérica até prova em contrário. A imagiologia, com destaque para a tomografia computorizada, assume um papel central na demonstração da extensão da doença e na identificação de comunicação fistulosa, sendo determinante para a orientação terapêutica, frequentemente em cuidados paliativos.
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Referências
1. Zhao J, Ma N, Zhao Z, Lei J, Lu Q, Tian F, et al. Colobronchial fistula: the pathogenesis, clinical presentations, diagnosis and treatment. J Thorac Dis 2017;9:187–93. Doi:10.21037/jtd.2017.01.11.
2. Hwang JC, Ha HK, Park KB, Weon YC, Han DB, Lee MG, et al. Usefulness of CT in Patients with Gastrointestinal Fistula. Journal of the Korean Radiological Society 1997;37:273. Doi:10.3348/jkrs.1997.37.2.273.
3. Arora G, Badhe P V. Role of Multidetector Computed Tomography in Diagnosis of Acquired Gastrointestinal Fistulas. Journal of Gastrointestinal and Abdominal Radiology 2023;06:015–20. Doi:10.1055/s-0042-1758124.
4. Pickhardt PJ, Kim DH. CT colonography : principles and practice of virtual colonoscopy. Philadelphia, PA: Saunders/Elsevier; 2010
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